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Eu ja sofri um aborto espontâneo.
Tive uma gravidez anembrionária em 2007.
Estava com 10 semanas de gestação.
Tudo começou com um corrimento que parecia uma borra de café.
Depois de idas e vindas durante três dias de um hospital, que dizia não ser necessário um ultrassom para a verificação, constatou-se: Saco embrionário de 7 semanas, sem embrião.
O mundo parou!
Em casa de repouso aguardando a saída espontânea do aborto, uma noite com dores indescritíveis e terríveis, seguida de muito sangramento e lôbolos de sangue.
Foi o final.
Não, não foi.
Três meses após estes acontecimento uma enorme hemorragia, com mais pedaços de sangue e muito desespero e pânico, internação de emergência, suspeita de
Mola Hidatiforme, e por fim curetagem e coleta de material para análise.
Semanas depois o resultado: Restos do aborto que estavam infeccionando no meu útero.
Na época não tinha blog e nem sonhava em ter um.
Escrevi um depoimento em um blog específico sobre Gestação Anembrionária -
Ovo cego.
Pesquisava muito, lia muito sobre o assunto para tentar diminuir a dor.
Não consegui ver grávidas e bebês, a dor era enorme e o medo de ser infértil maior ainda.
Mas Deus sabe o que faz.
Cinco meses depois, liberada pelo Médico, engravidei da Pinguinho.
Confesso que fui muito apreensiva para a primeira ultrassonografia, apavorada, na verdade. Mas ao ver na tela do monitor aquele grãozinho de feijão dentro do saco embrionário e ouvir seu coração, senti a presença de Deus na minha vida. Senti que ele tudo pode e que desta vez daria tudo certo.
E deu.
Minha Pinguinho está aqui. Linda, saudável e muito amada. Graças a Deus!
Isto é apenas um desabafo e quem sabe uma força a tantas mulheres que passam por isto.
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Desabafo escrito em 10 de dezembro de 2007
Quanta dor pode suportar o coração de uma mulher?
Neste ano, passei em poucas semanas da alegria, felicidade, e esperança de uma nova vida, para uma dor, um medo e uma sensação de perda irreparável em meu coração.
Já amava tanto este pequeno ser que crescia dentro de mim, amava todas as mudanças que ele trazia, amava toda a felicidade que ele fazia resplandecer do meu corpo.
E em uma quinta feira, no final de novembro, data que prefiro esquecer, todo este amor, esta expectativa simplesmente sumiu, parecia não ser real, parecia que não aconteceu, foi arrancada de dentro de mim, embora ainda, fisicamente, estivesse lá.
Segurei o quanto pude, tirei forças de onde nem sabia que tinha, mas levantei a cabeça e segui. Mas hoje, esta dor está ficando insuportável, pois o mundo ao meu redor parece não me deixar esquecer e ficar em paz. Tudo ao meu redor me lembra, me faz pensar, sonhar e desejar o que não vai acontecer, pelo menos não agora, não tão cedo.
A sombra de um fantasma com medo, insegurança e falta de confiança, atrapalha meus sonhos, me sinto uma mulher vazia, uma mulher incapaz, uma mulher desfavorecida da graça de gerar filhos.
Não consigo ouvir falar de gravidez, não quero ficar perto de bebês, não olho para objetos ou qualquer outra coisa que me faz lembrar, na esperança de fazer este sentimento sumir, mas minhas tentativas parecem fracassar, quando mais eu tento esquecer, mas me lembro.
Porque isto tinha que acontecer? Porque não fui capaz de levar aquela gestação para frente? Porque aconteceu comigo? Será que foi castigo? Fiz algo desmerecedor? Não tomei os devidos cuidados? Não dei o devido valor?
São tantas perguntas e nunca virá nenhuma resposta.
Tenho medo que este desejo me faça mal, que se torne uma obsessão.
Não tenho com quem conversar, desabafar, as pessoas não querem falar no assunto, não sabem como lidar com a situação e não entendem. Como acontece com qualquer situação de perda. É constrangedor para uns e insignificante para outros.
E continuo acumulando esta montanha de sentimentos dentro de mim. Choro escondida, penso, mas não falo, guardo tudo e sigo em frente como esperam que a gente faça.
Seria tão mais fácil se não estivesse planejando e correndo o risco de saber que isto poderia acontecer, seria tão mais fácil se tivesse conseguido encarar a gravidez com mais normalidade, se não fosse a primeira e tão desejada. Se tivesse a certeza que viriam outras...
Mas quem disse que as coisas fáceis que acontecem com a gente? Quem disse que passar por este pesadelo já era o suficiente? Quem disse que ele iria ser superado logo? Quem disse que não teriam mais problemas? Pois é... Se alguém disse isto, é porque não sabe de nada.
J. H. 10/12/2007